Fernando Mendes, ex-defesa do Benfica, Boavista e F. C. Porto e Sporting, publica livro sobre os meandros escuros da bola em Portugal.
O antigo futebolista internacional Fernando Mendes, actual treinador do Olímpico do Montijo, denuncia o recurso a doping no futebol português, no livro "Jogo Sujo", lançado esta segunda-feira, embora sem identificar clubes ou responsáveis pela prática.
O ex-defesa esquerdo, de 42 anos, dedica dois capítulos da obra às suas histórias com o doping e outros onze ao seu percurso no Sporting, Benfica, Boavista, Belenenses, FC Porto e Vitória de Setúbal, à família, à selecção nacional e aos primeiros passos como treinador.
Advertindo que "há muito mais para contar", Fernando Mendes considera o livro "um dever cumprido" e esclarece na nota final que esta é uma "segunda versão da obra inicialmente escrita" em parceria com o jornalista Luís Aguilar e editada pela Livros d'Hoje.
"A primeira versão apontava nomes, locais e datas dos momentos mais sórdidos que aqui são relatados. Infelizmente, o clima de medo e de censura instalado no futebol português tornou impossível juridicamente que essas mesmas pessoas fossem expostas, deixando esse primeiro livro condenado a viver numa gaveta", justifica.
O antigo internacional luso foi o único futebolista que representou os cinco clubes campeões nacionais - Belenenses, Benfica, Boavista FC Porto e Sporting - e durante a sua carreira conquistou quatro campeonatos, três Taças de Portugal e outras tantas Supertaças.
Em 1991/92, Fernando Mendes alinhou no Boavista, por empréstimo do Benfica, numa época que o próprio reconhece como "brilhante" e em que os "axadrezados" eram treinados por Manuel José, actual seleccionador de Angola, o técnico que já o tinha lançado na equipa principal do Sporting, clube onde fez a formação.
O Boavista alcançou então um "dos maiores momentos de glória da história europeia", ao afastar o Inter de Milão na ronda inaugural da Taça UEFA, como recorda no capítulo sobre a primeira passagem pelo Bessa. "Só mesmo um Boavista unido e pronto para morrer em campo, seria capaz de sobreviver ao magnífico ambiente que se fazia sentir no mágico estádio Giuseppe Meazza", lembra.
Nas passagens dedicadas ao doping, o actual treinador conta como as coisas se passavam, mas sempre sem identificar clubes ou pessoas.
"Havia jogos em que entrávamos no balneário e perguntávamos: 'Onde está o 'milho''? Pouco depois, aparecia o massagista com uma bandeja recheada de seringas para dar a cada um dos jogadores. Parecíamos galinhas de volta do prato, à espera da nossa vez: obcecados com a poção mágica que nos ajudava a correr mais do que os nossos adversários", refere.
Neste caso, sem mencionar nomes, Fernando Mendes alude ao embate com o clube de Milão, identificando-o como "uma equipa que tinha três campeões do Mundo no seu plantel". Na altura, alinhavam nos "nerazurri" os alemães Lothar Mattheus, Jürgen Klinsmann e Andreas Brehme, que tinham vencido o Mundial Itália90.
"Um deles era um poderoso avançado no jogo aéreo. Como sabem, sempre joguei a defesa esquerdo e, embora não tivesse de marcar este jogador directamente, apanhei-o várias vezes no meu terreno de acção. Ele era um armário, com um tremendo poder de impulsão. Mas nesse dia eu saltei que nem um louco e ganhei-lhe todas as bolas de cabeça. Parecia que tinha molas nos pés", detalha Fernando Mendes, admitindo ter jogado com "ajuda de estimulantes", no caso Pervitin.
Fernando Mendes acredita "que essa compra até poderia ser realizada com dinheiro do clube", mas sublinha que isso "não quer dizer que a direcção soubesse para que fim se destinava" a verba, acrescentando: "Os dirigentes não estavam connosco no balneário, nem viam as seringas e as cápsulas".
Do percurso profissional, recorda ainda os tempos em que levava "uma espingarda de pressão de ar" para os treinos do Benfica, o "gosto especial por prostitutas" dos russos Iuran, Kulkov e Mostovoi, ou a "verdadeira batalha campal nos balneários das Antas", após a agressão do liberiano George Weah a Jorge Costa.
Fernando Mendes refere ainda a presença de "mulheres" nos estágios da selecção nacional e o recurso ao doping numa das suas 14 internacionalizações, com a ajuda de um médico e um massagista do seu clube, a seu pedido, e "sem que ninguém se aperceba".
"Faço uma primeira parte fantástica, mas ao intervalo começo a sentir-me cansado e tenho medo de não aguentar o mesmo ritmo na segunda parte. Decido, por isso, pedir ajuda a um profissional conhecedor de estimulantes (...) Estão lá um médico e um massagista de um clube onde jogo (...) No intervalo peço a esse médico para me dar uma das suas injecções de doping. Saio do balneário da selecção, sem que ninguém se aperceba, e entro numa salinha ao lado. É aí que esse médico e o seu massagista me dão a injecção pedida por mim", sublinha, realçando que "o efeito é praticamente imediato".
in Jornal de Notícias, 29 de Junho de 2009











